Técnica 29: Reversão do Binômio Intencionalidade/Retribuição

Toda vez que ocorre um conflito, o mediador há que buscar na origem da dissonância, as intencionalidades das partes, que levaram à formação da lide. Isso é necessário, pois todo conflito terá em sua origem, duas racionalizações em curso: a percepção da intencionalidade e, daí, a retribuição a ela.

Por exemplo, quando alguém esbarra em você na rua, a primeira coisa que vem à cabeça é aquilo ter ocorrido sem querer. Em certos países, qualquer tipo de contato indevido, como esse, dará ensejo à imediata declaração de desculpas pelo ocorrido, por ambas as partes. Esse pedido de desculpas imediato, além de refletir cortesia social, também é essencial para determinar a intencionalidade não querida do ocorrido. Se isso ocorre, seguimos em frente e esquecemos imediatamente da ocorrência, pois avaliamos que a intencionalidade não existia e ocorrera um mero fortuito no evento.

Não obstante, em outro exemplo, você está com sua namorada nova, e o ex-namorado dela passa a seu lado e lhe dá um belo esbarrão. Ao você perceber quem é o autor do ato, mesmo que ele peça desculpas, se sua avaliação de intencionalidade for de que aquele ato foi proposital, sua mente entrará imediatamente no nível da retribuição, ou seja, da produção de uma resposta punitiva ao autor do ocorrido. Isso poderá se dar desde um gesto de cara feia e desagravo, um xingamento ou até mesmo violência física.

Logo, são dois níveis mentais de julgamento em ação. O primeiro, ocorre a partir do ato, avaliando a intencionalidade da ofensa produzida. O segundo, uma vez detectada a agressão, resultará na escolha do nível de retribuição punitiva ao ato.

Geralmente o nível de retribuição segue uma ordem escalar, das punições mais leves às severas, em conformidade com as condições emocionais e a quantidade ou acúmulo de agressões recebidas, o que vai agravando e criando uma "escalada" irracional do conflito que deve ser evitada.

Para tanto, o mediador deve atuar no nível das intencionalidades. É importante, nesses casos, deixar as partes explicitarem o ocorrido e suas motivações. O mediador, ao entender o porquê do ocorrido, poderá então explicar a outra parte o que levou ao avanço do conflito e como isso deve ser reavaliado por ambos para se buscar uma solução.

Deve ficar claro a ambos, que o conflito, nesse caso, serviu como retribuição punitiva, a partir das intencionalidades incorretas adquiridas e que, agora, em sede da mediação, devem ser refeitas para que se busque uma solução acordada ao caso.