Técnica 01: Mediador Doador

CASE: 
 
         Samuel nos trouxe uma experiência advinda do seu trabalho enquanto conciliador voluntário nos Juizados Especiais. Ele gostaria de novas técnicas para melhorar o acolhimento e o amparo à resolução de controvérsias e, para tanto, procurou uma pessoa de muita experiência de vida para se orientar.

  
         A Samuel foi sugerido apenas estar aberto a viver uma experiência assistencial doadora. Isto mesmo, fazer uma doação no valor suficiente para encerrar a controvérsia. Mas a técnica deveria ser corretamente aplicada, ou seja, somente deveria fazer a doação para encerrar a controvérsia quando o ápice emocional do conflito atingisse sua maior curva tolerável na audiência.
  
         Sem saber se isso iria ocorrer ou não, Samuel prestou atenção na dica de que, o importante era ele estar preparado para realizar essa técnica doadora pois, no momento certo, seu mister de conciliador com certeza lhe possibilitaria uma vivência aprofundada sobre o assunto e ele teria uma grande oportunidade de aprender sobre o impacto daquela técnica.
  
         Cerca de uns dois meses depois dessa conversa, numa quarta-feira ensolarada, Samuel, devido a outros compromissos, almoçou mais tarde. Ao pagar a conta do restaurante de R$ 26,00, ele entregou uma nota de R$ 50,00 e recebeu, de troco, a quantia de R$ 24,00.
  
         Ao pegar o troco de R$ 24,00 nas mãos, ele ficou olhando para aquele dinheiro de maneira incomum, era como se algo naquelas notas o chamassem à atenção por algo. Sem entender o porquê, as colocou na carteira e seguiu direto para o Fórum.
  
         Samuel chegou à sala de conciliações um pouco antes das 14 h com dois alunos seus, advindos do curso de graduação em Direito, que estavam ali para aprender técnicas e a prática da conciliação.
  
         Como esses alunos haviam recebido anteriormente o treinamento teórico e já tinham praticado algumas conciliações mais simples, Samuel pediu para um deles assumir pela primeira vez a abertura dos trabalhos, conduzindo a primeira audiência conciliatória daquela tarde para adquirir mais experiência, preparando e iniciando o campo de trabalho, sem a intervenção do professor.
  
         Samuel sentou-se em uma das cadeiras ao lado da mesa de mediação, para acompanhar os trabalhos, juntamente com o outro aluno presente.
  
         O aluno então pegou os processos do dia e avaliou os casos. Dentre os seis casos agendados para a conciliação naquela tarde, o mais simples deles envolvia uma disputa por R$ 24,00 entre duas senhoras, em que não havia nenhum documento comprobatório da dívida. Logo, não só pelo montante, mas pela falta de comprovação do direito ali pleiteado, o pressuposto era que seria possível auxiliar as partes a um acordo com mais rapidez. Esse então fora o caso escolhido pelo aluno, em concordância com Samuel, para a realização da audiência conciliatória inicial do dia.
  
         As duas senhoras foram chamadas e convidadas a adentrar à sala das conciliações. Uma delas aparentava-se muito bem vestida e a outra aparentava-se com vestimentas mais humildes.
  
         O aluno iniciou o procedimento, informou e pediu a autorização de nossa presença enquanto componentes do projeto de formação de conciliadores, consultou a identificação de ambas, explicou devidamente sobre o funcionamento da audiência de conciliação, conclamou-as à resolução acordada do conflito, falou sobre as vantagens da conciliação amigável e passou a palavra para a reclamante (a senhora bem vestida) explicar o porquê da sua presença ali.
  
         A reclamante, disse que estava ali para cobrar uma dívida de R$ 24,00 de sua ex-empregada doméstica, que havia pedido dinheiro emprestado, abandonado e não havia pago a dívida. Após falar seu objetivo, começou a ofender a reclamada pelo ocorrido.
  
         Foi imediatamente interrompida pelo conciliador, que pediu prudência nas palavras e focar os ânimos na resolução dos problemas e não nas pessoas. O conciliador perguntou se haveria algum documento comprobatória da dívida ou alguma testemunha e a resposta foi negativa.
  
         A palavra foi passada então a senhora humilde para saber sua versão. Aos prantos, a reclamada disse não saber porque estava ali, já que teria apenas abandonado o emprego e nada devia a reclamante.
  
         Ao escutar essa justificativa, a reclamante, enfurecida, voltou a ofender a reclamada e passou aos xingamentos. Durante alguns instantes, foi isso que se viu: xingamentos de um lado e cada vez mais lágrimas do outro.

         Enquanto observador imparcial, Samuel segurou-se para não intervir de imediato. Ficou logo tranquilo quando viu seu aluno dominar a situação e acalmar os ânimos. Outrossim, na sequência seu aluno tentou por todas as técnicas que lhe foram ensinadas a resolução pacífica daquele controvérsia, fazendo sugestões de reflexão sobre o ocorrido, propostas de pagamento, mas nada avançava. Pelo contrário, a expressão corporal da reclamante aparentava que, a qualquer momento e por qualquer outra resposta dissonante da reclamada, poderia novamente subir o tom e até agredi-la fisicamente.
  
         Feitas todas as tentativas possíveis de conciliação, dentro daquele clima de conflito pessoal que ficara ali instalado, o conciliador fez conexão visual com o Samuel, informando sobre o encerramento dos trabalhos da audiência de conciliação.
  
         Num lapso de segundo, vieram à tona a lembrança de que Samuel tinha exatos R$ 24,00 na carteira, assim como a dica que lhe foi dada, em estar atendo à oportunidade de, no momento certo, aplicar a técnica doadora. O momento certo chegara.
  
         Imediatamente, Samuel rompeu com seu silêncio procedimental, já que acompanhara a audiência enquanto observador e supervisor, e pediu a palavra, tirou o dinheiro da carteira e o colocou sobre a mesa, entre elas, dizendo:
  
         --- Aqui está o dinheiro do conflito, pago a dívida entre vocês e espero que agora consigam repensar o porquê de estarem aqui vivendo esse momento degradativo de suas vidas. Um silêncio enorme se fez na sala de conciliação por uns instantes.
  
         Foi novamente Samuel quem falou, ao pedir ao aluno a desempenhar a função de conciliador, que lavrasse o termo do acordo, descrevendo que a reclamada pagara a dívida no ato da audiência e que nada mais devia para a reclamante.

         Foram surpreendentes mais 05 minutos de silêncio, apenas quebrados pelos sons da digitação do acordo e sua sequente impressão.
  
         Uma vez assinado por ambas, mas ainda em lágrimas, a reclamada pediu para se retirar e foi embora, sem dizer uma palavra.
  
         Não obstante atingir seus objetivos materiais pedidos na ação, a reclamante permaneceu na sala, ali sentada, olhando para o vazio, com o dinheiro à sua frente. Sua expressão corporal agora tinha mudado completamente e ela aparentava estar ali, ausente e vencida pelo desgaste do ocorrido. Sem manifestar reação, ela permanecia ali, em silêncio.
  
         Somente quando o conciliador pediu para ela deixar o recinto, em razão das próximas audiências, ela se virou para Samuel e pediu para conversar em particular e lhe disse:
  
          --- Prezado senhor, eu não sei porque estou ou o que eu vim fazer aqui. Estou muito envergonhada. Gostaria de lhe devolver o dinheiro, pois sinceramente não sei o que passou comigo e porque propus essa ação.
  
         Samuel não aceitou a devolução e disse-lhe para repensar profundamente o ocorrido e o que aquela controvérsia estava a lhe dizer sobre sua qualidade de vida afetiva. Naquele momento, a senhora ficou a olhar no vazio novamente. Passados um minuto, pegou o dinheiro, pediu desculpas e saiu da sala.

ANÁLISE:
 
        A técnica do mediador doador não implica somente que o mediador pague dívidas em doação e assim resolva controvérsias alheias. Implica que, essa doação seja feita no momento certo do ápice emocional do conflito, para que o pagamento possa ser utilizado enquanto impacto, com função terapêutica.

           Esse impacto é capaz de retirar as partes das posições assumidas no conflito, ao lhe retirar o objeto da disputa, expondo aquelas racionalidades incorretas assumidas.
  
         Isso desarma as partes da projeção antagônica no outro, enquanto barreira à satisfação de sua pretensão e, a exemplo do caso em questão, pode até levar à parte à consciência de sua posição vexaminosa assumida no conflito, levando-a a um repensar imediato sobre o ocorrido.
  
         Portanto, o uso da técnica pode ser bastante útil desde que o mediador saiba o momento certo de aplicar a técnica e desde que ele tenha motivação e condições materiais de realizar tal procedimento doador no caso concreto, em prol da solução daquela determinada controvérsia, exposta à sua condução conciliatória.